O antropólogo Egon Schaden traduziu “Nimuenda” por “conseguir para si um lugar”, enquanto Juan Francisco Recalde traduziu por “aquele que soube abrir seu próprio caminho neste mundo e conquistou seu lugar”.
Ninguém seria mais indicado para explicar a formação desse nome de uma língua Tupi-Guarani do que o Prof. Aryon Dall’Igna Rodrigues, o mais importante lingüista brasileiro no campo das línguas indígenas.
"No dialeto Guaraní dos Apapokúva, que é o mesmo mais recentemente chamado no Brasil (desde os trabalhos de Egon Schaden) de Nhandéva (no Paraguai é Chiripá), o nome Nimuendajú tem a seguinte constituição:
ni- prefixo reflexivo,
mu- prefixo causativo,
-en um dos alomorfes do verbo 'estar sentado',
-a ~ -av sufixo nominalizador de circunstância,
ju [dZu] 'amarelo' (tema descritivo, que metaforicamente parece significar também 'brilhante', 'respeitável', e que é acrescentado a nomes de pessoas).
A ordem das derivações é a seguinte:
-ena(v) 'lugar de estar sentado, ou estabelecido, assentamento',
muena [muenda] 'fazer assentamento',
nimuena [nimuenda] 'fazer assentamento para si mesmo',
nimuenaju [nimuendadZu] 'o que fez seu assento, o que se estabeleceu'. "
Sobre o sufixo “-ju”, o lingüista Wilmar D’Angelis acrescenta:
As comunidades Guarani que, entre a primeira metade do século XIX e a primeira do século XX partiram do Mato Grosso ou do Paraguai, em migrações messiânicas, rumo ao
mar, ainda que hoje sejam alinhadas no que se tem chamado (desde Egon
Schaden), os "Nhandeva-Guarani", partilhavam, naquele momento, de muitos
elementos comuns a outros grupos, alguns dos quais hoje tomamos por
'marca' dos Mbyá-Guarani (os mais "fundamentalistas" dos Guarani, alguém
já disse). Uma dessas coisas é a composição dos nomes pessoais.
Tais nomes são sagrados, e os Mbyá ainda hoje não os revelam aos não-índios, mas
os "Nhandeva" não têm dificuldade de os revelarem. Bem, nesses nomes sagrados, o elemento "-ju", que em linguagem comum significa "amarelo", em linguagem religiosa tem o sentido de "resplandecente", o que equivale, também, a sagrado, próprio ou originado
das divindades. Entre os Nhandeva-Guarani atuais da Aldeia Nimuendaju
(antigo Posto Araribá), onde o próprio foi batizado, encontramos pessoas
com nomes como: Avá Ropodju, Kunhã Nimbokotyvydju, Rokwawydju, Nimoapendju, Niaryasaju, e vários outros.
(*) a pronúncia, em Guarani, do sufixo "-ju" poderia ser representada em Português como "dju", por conta do caráter africado alveo-palatal sonoro da consoante.