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Curt Nimuendajú


Nimuendajú é o nome dado pelos Apapokuva Guarani do Araribá (SP) ao cidadão alemão que, em 1905, embrenhou-se em território indígena, nas matas pouco exploradas do oeste do Estado de São Paulo. Até então identificado como Kurt Unkel, esse alemão nascera em Jena (Alemanha) em 17 de abril de 1883. Veio para o Brasil ‘em busca dos índios’, aos 20 anos, e aqui viveu, praticamente entre os índios, até sua morte, em 10 de dezembro de 1945*. Nos anos 20 naturalizou-se brasileiro, aportuguesando o nome Kurt (para Curt) e adotando o nome com que os Guarani o batizaram.

Seu primeiro trabalho etnográfico de fôlego que veio à luz, de enorme importância e repercussão, apareceu em 1914 em uma renomada revista alemã (Zeitschrift für Ethnologie), sob o título (aqui traduzido) de “Os mitos de criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapokuva Guarani”. São outros ‘clássicos’ seus, que não podem jamais ser omitidos em revisões bibliográficas, o ensaio sobre os Apinayé (de 1939) e as seguintes monografias publicadas post-mortem: sobre os Timbira Orientais (1946), sobre os Gorotire (1952) e sobre os Tükuna (1952). Publicou diversos artigos e ensaios menores, e teve publicados diversos documentos post-mortem, além de ter deixado, ainda, um grande número de manuscritos inéditos.

(*) De fato, por duas décadas Nimuendajú alternava aproximadamente um semestre em campo (nas aldeias) e um semestre em Belém do Pará, onde produzia relatórios e material para publicações.



O nome Nimuendajú



O nome com que os Guarani de Araribá batizaram, em 1906, o alemão Kurt Unkel é composto assim:

JI ou JE + MŨ ou MÕ + ENDÁ + JÚ *

Reflexivo + Causativo + lugar + resplandecente **

(*) no dialeto dos Apapokuva, descrito pelo próprio Nimuendajú, é comum as elevações de vogais [e] para [i], e [o] para [u], em formas átonas. Assim, por exemplo, o possessivo de 1ª pessoa singular, que soa como “xe” no Guarani do Paraguai e em outros dialetos Guarani, entre os Apapokuva se pronuncia “xi”.
(**) sufixo comum aos nomes próprios (sagrados) dos Guarani

ENDÁ, acrescido do causativo MÕ (MÕENDÁ) significa: FAZER LUGAR. Essa locução, acrescida do prefixo reflexivo JI (JE), significa: FAZER-SE O LUGAR ou FAZER LUGAR PARA SI MESMO.

A forma JI-MŨ-ENDÁ, pela nasalização da vogal da primeira sílaba (ou morfema), é pronunciada NHĨMŨENDÁ ou NĨMUENDÁ. Essa fórmula recebe o sufixo próprios dos nomes sagrados Guarani, JÚ (que se pronuncia “djú”). É bom não esquecer que os Guarani, ao nascerem, trazem uma alma que ‘retorna’, um espírito que se reencarna.

Assim, NIMUENDAJÚ (ou NHĨMŨENDADJÚ, ou ainda NHẼMÕENDADJÚ) significa, aproximadamente: “aquele (resplandecente) que se fez o lugar”, ou “aquele (sublime) que fez o seu próprio lugar”.

Aryon Rodrigues assim escreveu, para uma lista de discussão:

“No dialeto Guaraní dos Apapokúva, que é o mesmo mais recentemente chamado no Brasil (desde os trabalhos de Egon Schaden) de Nhandéva (no Paraguai é Chiripá), o nome Nmuendajú tem a seguinte constituição: ni- prefixo reflexivo, mu- prefixo causativo, -en um dos alomorfes do verbo 'estar sentado', -a ~ -av sufixo nominalizador de circunstância, ju [dZu] 'amarelo' (tema descritivo, que metaforicamente parece significar também 'brilhante', 'respeitável', e que é acrescentado a nomes de pessoas). A ordem das derivações é a seguinte: -ena(v) 'lugar de estar sentado, ou estabelecido, assentamento', muena [muenda] 'fazer assentamento', nimuena [nimuenda] 'fazer assentamento para si mesmo', nimuenaju [nimuendadZu] 'o que fez seu assento, o que se estabeleceu'.”